São Paulo - uma cidade a cantar

Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar…

O som da música desse povo do planalto tem origens nas vozes da nação Guarani, dos portugueses saudosos, do canto do povo banto negro (de revolta ou de dor?), dos instrumentos trazidos por mais de setenta etnias que subiram a muralha e também das regiões brasileiras de norte a sul.

Uma cidade a cantar, a sorrir, a cantar, a pedir a beleza de amar…

E tem muito namoro nos vagões do Metrô, nas calçadas, nos bares. Aqui tem o melhor forró, dança do ventre, capoeira, óperas, rock pesado, blues na madrugada, chora a flauta em todo canto, sambas incríveis ecoam, a japonesa canta, a vela se acende e a melodia começa, tem fado brasileiro, jazz aqui a boa música!

Eu te vejo sumir por aí, te avisei que cidade era um vão…

Nas favelas tem canções, comunidades fazem suas letras, sons ecoam da Cantareira ao Butantã, da Guarapiranga a São Miguel. Todos apresentam sua “melô”.

De noite eu rondo a cidade a te procurar, sem te encontrar…

Nos corações solitários que perambulam pelo asfalto e através dos gigantes edifícios, mora sempre um estribilho. Moro em Jaçanã, sou da Freguesia do Ó, ele mora no Brás, e quem nunca viu o dia amanhecer vai no Bixiga pra ver.

Na Paulista os faróis já vão abrir…

A música nos une nessa metrópole que abraça com tanta força que até dói. Os sons chegam de surpresa de porões, das varandas e nas calçadas como que a embalar os passos apressados.

São Paulo canta. Esse canto que devia ser um canto de alegria, soa apenas como um soluçar de dor. Será pelas suas crianças perambulando nas ruas?

São 450 anos. Poderiam ser muitos mais. Afinal já havia gente por aqui!

É um canto de agonia pelas águas que a cidade perdeu, canta de dor pelo que não sabe de sua história, canta à modernidade, canta ao brega e ao chorão. Canta a vida e a morte, canta o amor.

Sou cantador, amanhece preciso ir, vou prá onde a estrada levar. Só sei cantar. E o som da cidade é também o mais puro caipira sim, daquele com cheiro de mato no cimento a cobrir tudo.

Assim é São Paulo: canta mais….

Escultura de William Zadig “Beijo eterno” - Largo de São Francisco

Músicas citadas:

  • As vitrines – Chico Buarque
  • Canto das três raças – Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro
  • Disparada – Geraldo Vandré e Théo de Barros
  • O cantador – Dory Caymmi e Nelson Motta
  • Paulista – Eduardo Gudin e J.C. Costa Netto
  • Punk da Periferia – Gilberto Gil
  • Ronda – Paulo Vanzolinni
  • Samba do Arnesto – Adoniram Barbosa
  • Se todos fossem iguais a você – A C. Jobim e Vinícius de Moraes
  • Vai pro Bixiga prá ver – Geraldo Filme

14 de março de 2006